A todos, Namaste!

Neste Sutra, o Buddha nos mostra que há vários mestres e muitas pessoas que seguem a cada um deles. Porém, é importante seguirmos somente a um Mestre Iluminado, um Buddha, que seja capaz de explicar, sem sombra alguma de erro ou dúvida o Dharma como realmente é. Somente quando explicado na totalidade e sem erros de visão, o Dharma é capaz de nos conduzir à Iluminação.

CULA-SIHANADA SUTRA

(“Tchula-sihanada Sutra”)

O Ensinamento sobre o Rugido do Leão

Traduzido do Páli para o Inglês pelo Ven. Ñanamoli Therá

 e Ven. Bhikkhu Bôdhi

Traduzido do Inglês para o Português, em linguagem simples

Por Bhantê Sunanthô Bhikshú

Fonte: site access to insight

  “Assim me foi transmitido oralmente.” Em certa ocasião, o Bhagaván (o Buddha) estava passando um tempo em Shrávatthi, no Bosque de Djetá, no parque que lhe foi doado pelo milionário Anathapindika. Então, ele disse aos Bhikshús (monges buddhistas): “Bhikshús!” “Bhantê!” – responderam os monges. O Bhagaván continuou:

 “Bhikshús, apenas aqui há um praticante do Cultivo Mental, apenas aqui há um segundo praticante do Cultivo Mental, apenas aqui há um terceiro praticante do Cultivo Mental, apenas aqui há um quarto praticante do Cultivo Mental. O ensinamento dos outros é vazio de praticantes do Cultivo Mental: é assim que vocês devem rugir corretamente o rugido do leão. (“sihanada”, em Páli, significa “rugido do leão”)

 É possível, Bhikshús, que os andarilhos de outras seitas perguntem: “Mas com que argumento ou baseado em qual autoridade os veneráveis monges dizem isso?” Aos andarilhos de outras seitas que perguntarem isso, vocês devem responder deste modo: “Amigos, quatro coisas nos foram declaradas pelo Bhagaván, aquele que sabe e vê, totalmente completo e iluminado; ao vermos isso em nós mesmos, dizemos: “Apenas aqui há um praticante do Cultivo Mental, apenas aqui há um segundo praticante do Cultivo Mental, apenas aqui há um terceiro praticante do Cultivo Mental, apenas aqui há um quarto praticante do Cultivo Mental.” Quais são os quatro? Nós confiamos no Mestre, nós confiamos no Dharma (o Ensinamento do Buddha), nós praticamos totalmente os Preceitos e nossos companheiros no Dharma nos são queridos e agradáveis, tanto os leigos quanto os outros monges. Estas são as quatro coisas que nos foram declaradas pelo Bhagaván, aquele que aquele que sabe e vê, totalmente completo e iluminado. Ao vermos tais coisas em nós mesmos, dizemos aquilo que fazemos.”

 “É possível, Bhikshús, que os andarilhos de outras seitas digam: “Amigos, nós também confiamos no mestre, quer dizer, em nosso mestre; também confiamos no ensinamento, quer dizer, no ensinamento de nosso mestre; também seguimos completamente os preceitos, quer dizer, nossos preceitos; nossos companheiros nos são queridos e agradáveis, tanto os leigos quanto os monges. Qual a diferença aqui, amigos, qual a variação, o que nos diferencia de vocês? Aos andarilhos de outras seitas que perguntarem isso, vocês devem responder deste modo: “Como, então, amigos é o objetivo um só ou menos? Se responderem corretamente, os andarilhos de outras seitas dirão: “Amigos, o objetivo é um, não são muitos.” (embora algumas seitas da época tivessem como objetivo se tornarem deuses em diferentes Reinos Celestiais). Mas, amigos, o objetivo é para alguém livre da luxúria ou ainda influenciado por ela?” “Mas, amigos, o objetivo é para alguém influenciado pelo ódio ou livre do ódio?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, o objetivo é para os que estão livres da luxúria, não para os que são influenciados por ela.” E, também: “Amigos, o objetivo é para os que estão livres do ódio e não para os que ainda são influenciados por ele” – “Mas, amigos, o objetivo é para os que estão  ainda influenciados pela ilusão ou livres de ilusão?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, este objetivo é para os que estão livres da ilusão, não para os que ainda são influenciados por ela.”

 “Mas, amigos, o objetivo é para os que estão ainda influenciados pelo apego ou livres do apego?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, este objetivo é para os que estão livres do apego, não para os que ainda são influenciados pelo apego.” “Mas, amigos, o objetivo é para os que estão ainda influenciados pela cobiça ou livres dela?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, este objetivo é para os que estão livres da cobiça, não para os que ainda são influenciados pela cobiça.”

 “Mas, amigos, o objetivo é para os que têm visão ou não têm visão?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, este objetivo é para os que têm visão, não para os que nâo têm visão.”

 “Mas, amigos, o objetivo é para os que favorecem e se opõem ou para os que não favorecem nem se opõem?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, este objetivo é para os que não favorecem nem se opõem, não para os que ainda favorecem e se opõem.” (favorecem e se opõem, em Páli – “anurôdha pativirôdha”, significa reagirem com prazer à luxúria e com aversão através do ódio)

“Mas, amigos, o objetivo é para os que ainda se deliciam com a proliferação (“papañtcha” em Páli, proliferação dos prazeres pelas coisas do mundo em geral, mas, neste caso, se refere ao apego e à cobiça somente) ou para os que já não se deliciam pela proliferação?” Se responderem corretamente, dirão: “Amigos, este objetivo é para os que estão livres da proliferação, não para os que ainda se deliciam com ela.”

 “Bhikshús, há estes dois pontos de vista: o ponto sobre existir e o ponto sobre não-existir. Qualquer praticante do Cultivo Mental ou Sacerdote (do hinduismo) que confia no ponto de vista sobre existir, adota o ponto de vista sobre existir, aceita o ponto de vista sobre existir, é oposto ao ponto de vista sobre não-existir. Qualquer praticante do Cultivo Mental ou Sacerdote que confia no ponto de vista sobre não-existir, adota o ponto de vista sobre não-existir, aceita o ponto de vista sobre não-existir, é oposto ao ponto de vista sobre existir. (Também aqui, o Buddha se refere à dualidade de “favorecer X se opor)

 “Qualquer praticante do Cultivo Mental ou Sacerdote que não entenda a correta origem (Samúdaya – a Segunda Nobre Verdade), o desaparecimento, a gratificação, o perigo e o escape (a entrada no Caminho que conduz à Iluminação), no caso destes dois pontos de vista, são afetados pela luxúria, afetados pelo ódio, afetados pela ilusão, afetados pelo apego, afetados pela cobiça, sem visão correta, entregues ao favorecer e à oposição e se deliciam  e alegram na proliferação. Não estão livres do renascimento, envelhecer e morte, nem da tristeza, lamentação, dor, luto e desespero; não estão livres da inquietação mental, eu lhes digo.

 “Qualquer praticante do Cultivo Mental ou Sacerdote que entenda corretamente a origem (Samúdaya – a Segunda das Quatro Nobres Verdades), o desaparecimento, a gratificação, o perigo e o escape (a entrada no Caminho que conduz ao Estado Mental do Nirváña), no caso destes dois pontos de vista, não mais são afetados pela luxúria, nem são afetados pelo ódio, não são afetados pela ilusão, nem são afetados pelo apego, também não são afetados pela cobiça, eles têm a visão correta, e não mais são entregues ao favorecer e à oposição, nem se deliciam  e alegram na proliferação. Estão livres do renascimento, do envelhecer e morte,  da tristeza, lamentação, dor, luto e desespero; tornaram-se livres da inquietação mental, eu lhes digo.”

 “Bhikshús, há quatro tipos de apego. Quais os quatro? Apego aos prazeres sensuais, apego aos pontos de vista, apego às regras e observâncias e apego à doutrina de que existe um Ego.” (ou que existe a “alma”)

 “Embora alguns praticantes do Cultivo Mental e sacerdotes afirmem e propaguem que entendem todos os tipos de apego, eles não descrevem completamente o entendimento deles (em Páli, “pahanapariññá” significa abandonar o apego, após o completo entendimento dele). Eles descrevem o completo entendimento do apego aos prazeres sensuais, sem descrever o completo entendimento do apego aos pontos de vista, o apego às regras e observâncias e sem descrever o apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma). Por que isto? Esses bons praticantes do Cultivo Mental e sacerdotes, não entendem estas três situações de apego como elas realmente são. Portanto, embora proclamem  que entendem profundamente os quatro tipos de apego, descrevem apenas o entendimento completo sobre o apego aos prazeres sensuais, sem descreverem o entendimento completo do apego aos pontos de vista, o apego às regras e observâncias e o apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma).”

 “Embora alguns praticantes do Cultivo Mental e sacerdotes afirmem e propaguem que entendem todos os tipos de apego, eles não descrevem completamente o entendimento deles. Eles descrevem o completo entendimento do apego aos prazeres sensuais e o apego aos pontos de vista, sem descrever completamente o apego às regras e observâncias e sem descrever o apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma). Por que isto? Esses bons praticantes do Cultivo Mental e sacerdotes, não entendem estas duas situações de apego como elas realmente são. Portanto, embora proclamem que entendem profundamente os quatro tipos de apego, descrevem apenas o entendimento completo sobre o apego aos prazeres sensuais, descrevem o entendimento completo do apego aos pontos de vista, sem descreverem completamente o apego às regras e observâncias e o apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma).”

“Embora alguns praticantes do Cultivo Mental e sacerdotes afirmem e propaguem que entendem todos os tipos de apego, eles não descrevem completamente o entendimento deles. Eles descrevem o completo entendimento do apego aos prazeres sensuais, descrevem o apego aos pontos de vista e também descrevem completamente o apego às regras e observâncias, porém sem descrever completamente o apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma). Por que isto? Esses bons praticantes do Cultivo Mental e sacerdotes, não entendem esta situação de apego como ela realmente é. Portanto, embora proclamem que entendem profundamente os quatro tipos de apego, descrevem apenas o entendimento completo sobre o apego aos prazeres sensuais, o entendimento completo do apego aos pontos de vista, descreverem completamente o apego às regras e observâncias mas não descrevem o apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma).”

 “Bhikshús, neste Ensinamento (Dharma) e Disciplina, que é pleno de confiança no Mestre e não é corretamente direcionado, que a confiança no Dharma não é corretamente direcionada, que os preceitos não são preenchidos completamente e, no qual a afeição entre os companheiros de prática do Dharma não é corretamente direcionada. Por que é isto? Porque é assim que acontece, quando o Dharma e a Disciplina são mal proclamados, mal expostos, não-libertadores, não condutores à paz, ensinados por alguém que não é completamente iluminado. (Um mestre com erros de visão)

 “Bhikshús, quanto um Tathágata (título que o Buddha usava para si mesmo), completo e totalmente iluminado, proclama o total entendimento dos quatro tipos de apego, ele descreve completamente o total entendimento deles: ele descreve completamente o entendimento do apego aos prazeres sensuais, ele descreve completamente o entendimento do apego aos pontos de vista, o entendimento do apego às regras e observâncias e descreve completamente o entendimento do apego à doutrina de que existe um Ego (ou alma).”

 “Bhikshús, neste Ensinamento (Dharma) e Disciplina, que é pleno de confiança no Mestre e é corretamente direcionado, que a confiança no Dharma é corretamente direcionada, que os preceitos são preenchidos completamente e, no qual a afeição entre os companheiros de prática do Dharma é corretamente direcionada. Por que é isto? Porque é assim que acontece, quando o Dharma e a Disciplina são bem proclamados, bem expostos, libertadores, condutores à paz, ensinados por alguém que é completamente iluminado. (Um mestre sem erro algum de visão)

 “Agora, estes quatro tipos de obstrução têm o que como fonte, o que é a origem deles, do que são nascidos e produzidos? Estes quatro tipos de obstrução têm o apego como fonte, o apego como origem, são nascidos e produzidos pelo apego. O apego tem o sentimento como fonte, como origem, é nascido e produzido pelo sentimento. O sentimento tem o quê como fonte? O sentimento tem o contato (entre os órgãos dos sentidos e seus respectivos objetos dos sentidos) como fonte, o contato como origem, é nascido e produzido pelo contato. O contato tem o quê como fonte? O contato tem a base dos seis órgãos (tato, olfato, paladar, visão, audição e mente) como fonte, a base dos seis órgãos como origem, é nascido e produzido pela base dos seis órgãos. A base dos seis órgãos tem o quê como fonte? A base dos seis órgãos tem a Mentalidade-Materialidade como fonte, tem a Mentalidade-Materialidade como origem, é nascida e produzida pela Mentalidade-Materialidade. A Mentalidade-Materialidade têm o quê como fonte? A Mentalidade-Materialidade têm a Consciência como fonte. Têm a Consciência como origem, são nascidas e produzidas pela Consciência. A Consciência tem o quê como fonte? A Consciência tem as formações (mentais) como fonte. Tem as formações como origem, é nascida e produzida pelas formações. As formações têm o que como fonte? As formações têm a ignorância (sobre as coisas como realmente são, sem ilusões) como fonte. Têm a ignorância como origem, são nascidas e produzidas pela ignorância.

 “Bhikshús, quando a ignorância é abandonada e o verdadeiro conhecimento surge em um Bhikshú (ou num praticante leigo do Cultivo Mental), então, com o desaparecer da ignorância e o surgimento do verdadeiro conhecimento, ele não mais se apega aos prazeres sensuais, não mais se apega aos pontos de vista, não mais se apega às regras e observâncias, não mais se apega à doutrina de que existe um Ego (ou alma). Quando ele não mais se apega, não mais há agitação mental. Quando não mais se agita, ele pessoalmente atinge o Estado Mental do Nirváña. Ele entende: “O renascimento foi destruído, a vida do Cultivo Mental foi vivida, o que tinha a ser feito, foi feito, não mais vir a ser, não mais estado de ser.”

 Isto foi o que o Bhagaván disse. Os Bhikshús ficaram satisfeitos e se deliciaram com as palavras do Bhagaván.

 Fiquem todos em Paz e protegidos!

 Bhantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ