Kālāma Sutra (também chamado: o Kālām Sutta; Sânscrito: Kālāma Sūtra;  Tailandês: กาลามสูตร, Kalama Sut, or Kesamutti SuttaPāliKesamuttisuta), é um Ensinamento do Buddha, encontrado no Aṅguttara Nikaya of the Tripiṭáka, a coletânea de Escrituras Buddhistas, equivalente à Bíblia para os Cristãos. É um Ensinamento aceito por todas as Tradições do Buddhismo, como um exemplo dado pelo próprio Buddha da liberdade de questionamento.

O  Kālāma Sutta também é usado para mostrar a necessidade de prudência, cautela, através do uso da razão para questionar a prática que conduz à busca da verdade, Sabedoria e conhecimento, seja ele religioso ou não. Ou seja, o Kālāma Sutra mostra claramente o quanto o Buddhismo é contrário à fé cega, dogmatismo e crença sem questionamento.

Este Ensinamento foi transmitido ao povo da aldeia de Kessaputra, numa das ocasiões em que o Buddha e seus discípulos visitaram aquele lugar.

Anguttara Nikaya 3 – 65

Kálámá Sutra

O Ensinamento aos Kálámás

“Assim me foi transmitido oralmente.”

hindu_primer-alpha-Certa ocasião, o Bhagaván (O Buddha) estava passando um tempo no Reino de  Kossalá com um grande número de Bhikshús (monges) e juntos andaram até a aldeia de Kessaputra, habitada pelo povo do Clã dos Kálámás. Eles já sabiam que o Bhagaván, de nome Gáutam, que largara o Clã dos Shakyas para tornar-se um mendigo, estava em Kessaputra, junto com muitos Bhikshús.

Também sabia que o Bhagaván era totalmente iluminado, um verdadeiro Mestre de seres humanos e celestiais, insuperável em seu Ensinamento, perfeitamente iluminado por esforço próprio. Então, o povo de Kessaputra foi ver o Bhagaván e seus monges.. Alguns prestaram respeito a ele e se sentaram, outros o cumprimentaram e se sentaram, outros ainda, com as palmas das mãos juntas prestaram respeito antes de se sentarem. Alguns preferiram anunciar seus nomes e a que Clã pertenciam. Outros, porém, sentaram-se em silêncio. Após se acomodarem, dirigiram-se ao Bhagaván, dizendo: “Bhantê, há muitos brâmanes (Sacerdotes hinduístas) e praticantes do cultivo mental que vêm a Kessaputra. Ensinam e exaltam suas próprias doutrinas, mas, em relação às dos outros, as criticam, desaprovam, depreciam e desdenham. Então, outros brâmanes e praticantes do cultivo mental também chegam a Kessaputra. Eles ensinam e exaltam suas próprias doutrinas, mas, em relação às dos outros, as criticam, desaprovam, depreciam e desdenham. Com isto, ficamos confusos e em dúvida sobre quais dizem a verdade e quais têm uma visão incorreta.

Então, o Bhagaván disse aos Kálámás: “Por certo vocês estão confusos, Kálámás. Porque é natural que haja dúvida em qualquer tema que cause perplexidade. Neste caso, Kálámás, não se deixem influenciar por relatos, tradições, boatos, pelo que está nas antigas Escrituras, pela razão ou pela inferência, nem pela analogia, pela confiabilidade da pessoa que ensina, nem pelo respeito por ela ou pelo pensamento dela. Vocês não devem simplesmente dizer: “Este praticante do cultivo mental é meu mestre.” Toda vez que souberem por si próprios que “Essas qualidades não são habilidosas, são censuráveis, podem ser criticadas pelos Sábios, quando postas em prática levam ao mal e à inquietação mental!” Sempre que isto acontecer, vocês devem rejeita-las.

 O que vocês pensam, Kálámás? Quando surge a cobiça em alguém, ela faz a essa pessoa mal ou bem?”

“Faz mal, Bhantê!”

“Então, quando a pessoa que se deixou dominar pela cobiça, tem a mente obcecada por ela, mata outros seres vivos, se apropria do que não lhe foi dado, tem desejo sexual pela mulher dos outros, mente e leva os outros a mentirem, pratica somente o que é danoso e causa inquietação mental por muito tempo.”

“Sim, Bhantê!”

O que vocês pensam, Kálámás? Quando surge a raiva em alguém, ela faz a essa pessoa mal ou bem?”

“Faz mal, Bhantê!”

“Então, quando a pessoa que se deixou dominar pela raiva, tem a mente obcecada por ela, mata outros seres vivos, se apropria do que não lhe foi dado, tem desejo sexual pela mulher dos outros, mente e leva os outros a mentirem, pratica somente o que é danoso e causa inquietação mental por muito tempo.”

“Sim, Bhantê!”

O que vocês pensam, Kálámás? Quando surge a ilusão em alguém, ela faz a essa pessoa mal ou bem?”

“Faz mal, Bhantê!”

“Então, quando a pessoa que se deixou dominar pela ilusão, tem a mente obcecada por ela, mata outros seres vivos, se apropria do que não lhe foi dado, tem desejo sexual pela mulher dos outros, mente e leva os outros a mentirem, pratica somente o que é danoso e causa inquietação mental por muito tempo.”

“Sim, Bhantê!”

O que vocês pensam, Kálámás? Essas situações são habilidosas ou sem habilidade?”

“Sem habilidade, Bhantê!”

“Censuráveis ou isentas de censura?”

“Censuráveis, Bhantê!”

“Quando praticadas, conduzem ou não ao mal e à inquietação mental?”

“Conduzem ao mal e à inquietação mental, Bhantê!”

 “Portanto, Kálámás, conforme lhes disse, não se deixem influenciar por relatos, tradições, boatos, pelo que está nas antigas Escrituras, pela razão ou pela inferência, nem pela analogia, pela confiabilidade da pessoa que ensina, nem pelo respeito por ela ou pelo pensamento dela. Vocês não devem simplesmente dizer: “Este praticante do cultivo mental é meu mestre.” Toda vez que souberem por si próprios que “Essas qualidades não são habilidosas, são censuráveis, podem ser criticadas pelos Sábios, quando postas em prática levam ao mal e à inquietação mental!” Sempre que isto acontecer, vocês devem rejeita-las.

 “De agora em diante, Kálámás, não se deixem influenciar por relatos, tradições, boatos, pelo que está nas antigas Escrituras, pela razão ou pela inferência, nem pela analogia, pela confiabilidade da pessoa que ensina, nem pelo respeito por ela ou pelo pensamento dela. Vocês não devem simplesmente dizer: “Este praticante do cultivo mental é meu mestre.” Somente quando vocês souberem por si próprios que “Essas qualidades  são habilidosas, não são censuráveis, não são criticadas pelos Sábios, quando postas em prática levam ao bem e à tranquilidade mental!” Sempre que isto acontecer, vocês devem acolhe-las e permanecer com elas.

O que vocês pensam, Kálámás? Quando surge a ausência de cobiça em alguém, ela faz a essa pessoa mal ou bem?”

“Faz bem, Bhantê!”

 “Então, quando a pessoa que não se deixou dominar pela cobiça, não tem a mente obcecada por ela, não mata outros seres vivos, nem se apropria do que não lhe foi dado, não tem desejo sexual pela mulher dos outros, não mente e tampouco leva os outros a mentirem, pratica somente o que é bom e causa tranquilidade mental por muito tempo.”

 “Sim, Bhantê”

O que vocês pensam, Kálámás? Quando surge a ausência de raiva em alguém, ela faz a essa pessoa mal ou bem?”

 “Para o bem, Bhantê!

“Então, quando a pessoa que não se deixou dominar pela raiva, não tem a mente obcecada por ela, não mata outros seres vivos, nem se apropria do que não lhe foi dado, não tem desejo sexual pela mulher dos outros, não mente e tampouco leva os outros a mentirem, pratica somente o que é bom e causa tranquilidade mental por muito tempo.”

 “Sim, Bhantê”

“O que vocês pensam, Kálámás? Quando surge a ausência de ilusão em alguém, ela faz a essa pessoa mal ou bem?”

 “Para o bem, Bhantê!

 “Então, quando a pessoa que não se deixou dominar pela ilusão, não tem a mente obcecada por ela, não mata outros seres vivos, nem se apropria do que não lhe foi dado, não tem desejo sexual pela mulher dos outros, não mente e tampouco leva os outros a mentirem, pratica somente o que é bom e causa tranquilidade mental por muito tempo.”

 “Sim, Bhantê”

“Então Kálámás o que vocês pensam. Essa qualidades são habilidosas ou não habilidosas?”

“Habilidosas, Bhantê.”

“Censuráveis ou isentas de censura?”

“Isentas de censura, Bhantê!”

 “Criticadas ou elogiadas pelos Sábios?”

“Elogiadas pelos Sábios, Bhantê.”

“Quando praticadas, conduzem  ao mal e à inquietação mental ou conduzem ao bem e à tranqüilidade mental?”

“Conduzem ao bem e à tranquilidade mental, Bhantê!”

 “Portanto, Kálámás, conforme lhes disse, não se deixem influenciar por relatos, tradições, boatos, pelo que está nas antigas Escrituras, pela razão ou pela inferência, nem pela analogia, pela confiabilidade da pessoa que ensina, nem pelo respeito por ela ou pelo pensamento dela. Vocês não devem simplesmente dizer: “Este praticante do cultivo mental é meu mestre.” Toda vez que souberem por si próprios que “Essas qualidades são habilidosas, não são censuráveis, não podem ser criticadas pelos Sábios, quando postas em prática levam ao bem e à tranquilidade mental!” Sempre que isto acontecer, vocês devem aceita-las “Agora Kálámás, aquele que é um nobre praticante do cultivo mental – portanto livre da cobiça, livre da má vontade, não mais iludido, com Atenção Plena e plena consciência – permanece com a mente repleta de Amor Incondicional por todos os seres, percorrendo o primeiro quadrante com a mente repleta de Amor Incondicional por todos os seres, e assim também percorre o segundo,  o terceiro, o quarto; também acima, abaixo, em volta e em todas as direções, com Amor Incondicional por todos os seres e também por si mesmo,  ele expande pelo mundo todo a mente repleta de Amor Incondicional por todos os seres, infinito, insuperável, imensurável, livre de inimizade e de maus pensamentos .

“Ele permanece com a mente repleta de Compaixão por todos os seres, percorrendo o primeiro quadrante com a mente repleta de Compaixão por todos os seres, e assim também percorre o segundo,  o terceiro, o quarto; também acima, abaixo, em volta e em todas as direções, com Compaixão por todos os seres e também por si mesmo,  ele expande pelo mundo todo a mente repleta de Compaixão por todos os seres, infinita, insuperável, imensurável, livre de inimizade e de maus pensamentos.

“Ele permanece com a mente repleta de Alegria em ver a felicidade dos outros seres, percorrendo o primeiro quadrante com a mente repleta de Alegria em ver a felicidade dos outros seres, e assim também percorre o segundo,  o terceiro, o quarto; também acima, abaixo, em volta e em todas as direções, com Alegria em ver a felicidade dos outros seres e também por si mesmo,  ele expande pelo mundo todo a mente repleta de Alegria em ver a felicidade dos outros seres, infinita, insuperável, imensurável, livre de inimizade e de maus pensamentos

“Ele permanece com a mente repleta de Equanimidade de conceitos, percorrendo o primeiro quadrante com a mente repleta de Equanimidade de conceitos, e assim também percorre o segundo,  o terceiro, o quarto; também acima, abaixo, em volta e em todas as direções, com Equanimidade de conceitos e também por si mesmo,  ele expande pelo mundo todo a mente repleta de Equanimidade de conceitos, infinita, insuperável, imensurável, livre de inimizade e de maus pensamentos

 “Agora Kálámás, aquele que é um nobre praticante do cultivo mental – sua mente livre de inimizade, livre de maus pensamentos, sem obstáculos e pura – obtém quatro garantias no aqui e agora:

“’Se existe um outra existência após a morte nesta vida, se existem resultados dos bons e maus karmas praticados, então esse é o fundamento pelo qual, após a extinção  do corpo, após a morte, o praticante renasce num destino feliz, em outra esfera existencial.’ Essa é a primeira das garantias.

“Mas, se não houver uma nova existência após a morte, se não existem resultados dos bons e maus karmas praticados, então nesta vida o praticante do cultivo mental estará tranquilo – livre de inimizade, livre de maus pensamentos, livre de obstáculos.” Esta é a segunda garantia.

“Se maus resultados surgem para os que praticam mau karma, eu, porém, não penso em praticar o mal, portanto, como poderiam os maus resultados surgir para mim? Essa é a terceira das garantias.”

“Mas, se maus resultados não surgem para os que praticam mau karma, de qualquer forma, já estou purificado. Essa é a quarta garantia.”

“Aquele que é um nobre praticante do cultivo mental, que tem a mente livre de inimizades, livre de maus pensamentos, livre de obstáculos, recebe as quatro garantias aqui e agora.”

 “É realmente assim, Bhagaván (título do Buddha). O nobre praticante do cultivo mental, que tem a mente livre de inimizade, livre de maus pensamentos, livre de obstáculos, recebe as quatro garantias aqui e agora.”

Magnífico, Mestre Gáutam! Magnífico! O Mestre Gáutam explicou o Dharma (Ensinamento) de diversas formas, como se tivesse desvirado o que estava de cabeça para baixo, revelado o que estava oculto, mostrado o Caminho para alguém perdido ou como se segurasse uma lamparina no escuro para os que conseguem enxergar, vissem as diversas formas! Nós tomamos Refúgio (Tomar Refúgio, significa tornar-se oficialmente buddhista, na condição de leigo) no Bhagaván, no Dharma ensinado pelo Bhagaván e na Sangha (Comunidade de Monges Buddhistas) do Bhagaván. Que o Bhagaván sempre se lembre de nós como seguidores leigos, que Nele tomaram Refúgio para o resto da vida.”